por Andy Dufloth

Alguns dias atrás, saiu uma notícia na mídia[1] baseada num artigo científico publicado na área médica[2]. Como é “padrão-quase-clichê” com qualquer coisa envolvendo Ciência ou Educação, a manchete da notícia seria:

  1. Absolutamente sensacionalista e exagerada, ou
  2. Simplesmente sequer chamaria a atenção por mais importante que fosse.

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Nesse caso ocorreu ambos: era Educação em Ciência Médica. E, obviamente, a manchete nem chamou a atenção (pelo menos não a minha): “Cientistas descobrem o que acontece com a gordura quando você perde peso”.[1]

obs.: Vamos ignorar a diferença entre “peso” e “massa” no título, porque isso é café pequeno perto do todo!

Primeiro ponto importante: O (1º) erro cometido envolve a “Lei da Conservação das Massas”, estabelecida pelo francês Antoine Lavoisier em 1774 ( 240 anos atrás). Nem se discute, é matéria de segundo grau ao nível do clichê: “Nada se Perde, Nada se Ganha, Tudo se Transforma”.[3] Lembrou, não é? Bem, a pesquisa em questão basicamente apontou que literalmente nenhum dos médicos sabia Química de segundo grau. (Mais precisamente: num grupo de entrevistados composto de 50 médicos, 50 nutricionistas e 50 personal-trainers, apenas menos de 10% dos nutricionistas respondeu corretamente!)

Mas até aqui, onde entra o Incrível Hulk? Entra no momento em que tu vê a resposta de mais 60% dos médicos e nutricionistas (e mais de 50% dos personal-trainers) de para onde iria a massa perdida em academia: seria (perdida) na forma de energia ou calor.

PAREM AS MÁQUINAS!

hulk

Perdida? Na forma de energia OU calor?

Bom, Física de 8ª (ou 9ª) série (ou ano): “Calor” é “uma forma de energia em trânsito”. Discutir essa equivalência mais a fundo é algo muito interessante, fundamental no desenvolvimento da Ciência e de praticamente todo o nosso entendimento pós Século XVIII do Universo, mas fica para outro dia, em outro artigo.

Mas é matéria do primeiro grau (ou mesmo ensino fundamental!): e parcela significativa dos médicos e nutricionistas, a pesquisa demonstrou, não sabia (2º erro).


Adendo: “Caloria” nada mais é do que uma unidade de medida de energia, assim como o “Joule” (unidade internacional), o “BTU” (unidade do sistema britânico, abençoadamente caindo no ostracismo!), entre outras. NÃO, NÃO é uma unidade de energia que serve apenas pra medir “calor”! Dizer isso seria o equivalente de dizer:

  1. Que “galão” é uma unidade de volume específica para combustíveis, “litro” para alimentos líquidos e “metros cúbicos” para piscinas;
  2. Que “grama” seria uma unidade de massa específica para “cereais”, “quilo” (que está errado, é quilograma!) para carnes e “tonelada” para importados;
  3. Ou mesmo que “centímetro” seria uma unidade de comprimento específica para medir “cadernos” enquanto que “metro” para medir “veículos” e “quilômetro” para medir a distância que eles percorrem!

Nada impede, como o leitor bem sabe, que se meça a própria casa em metros ou centímetros: só vai mudar o “número”, a “grandeza” que antecede a unidade.


Até aqui tudo bem, mas o mais interessante é que, se nós não podemos perder ou ganhar matéria ou energia, nós podemos transformá-las; e, principalmente, intertransformá-las uma na outra. Como é? Sim, o nome disso é Química e Física Nuclear, Relatividade Específica.

Basicamente, os médicos (e nutricionistas e personal-trainers) que deram essa resposta não apenas erraram um (3º!) assunto que é matéria do segundo grau (ou ensino secundário: Sim, olhe nos seus livros de química: geralmente do segundo, por vezes do terceiro ano, a última matéria!), como erraram algo que é tão clichê que atualmente é a equação mais conhecida do planeta:

E = mc²

Mas estou divagando. Vamos ver o real impacto do “errinho” simples de tantos médicos?

Para termos uma comparação:

  1. A “Little Boy”, a bomba atômica lançada sobre Hihoshima, liberou uma energia de 54 à 75 TJ (vamos usar o valor médio para comparação: 64.500.000.000.000J) com 64,1kg de urânio enriquecido;[4][5]
  2. Já “Fat Man”, a bomba atômica lançada sobre Nagasaki, liberou uma energia de 84 à 92 TJ (88.000.000.000.000J) com 6,2 kg de plutônio;[4][6]
  3. A “Tsar”, maior bomba atômica já construída, no seu único teste com metade da potência (todos ficaram com medo de usar a potência máxima!), liberou a “bagatela” de 210.000 TJ (210.000.000.000.000.000J).[4]

Parece muito… Mas não é! Nenhuma reação nuclear conhecida permite a total interconversão de massa em energia (felizmente). Na verdade, muito da corrida armamentista girou justamente ao redor de “melhorar” a “eficiência” dessa interconversão. Pra colocar claramente os números: Na “Little Boy”, dos 64,1 kg de urânio enriquecido que geraram de 54 à 75 TJ de energia… apenas de 600 à 860 miligramas de massa foram convertidas em energia! O resto dos 64,1 kg de urânio enriquecido apenas resultaram nos outros produtos da reação de fissão nuclear![5]

20.7
Fonte: http://chemwiki.ucdavis.edu/Physical_Chemistry/Nuclear_Chemistry/Nuclear_Reactions
fission
Fonte: http://204.185.91.19/KHS/Teacher_Web/alternative/nuclear.html

Essa “massa” que foi convertida em energia na verdade estava desde o início associada à forças nucleares que garantem a coesão dos prótons e nêutrons. Quando tu “quebra” (divide) certos núcleos grandes específicos em núcleos menores, menos dessa energia é necessária para manter coesos os novos núcleos, e portanto ela é “liberada” (com a redução da massa a que ela equivalia) em outras formas de energia, principalmente na forma de calor e de diferentes formas de radiação!

Conseguir os 100% de conversão de massa em energia é algo digno dos motores de dobra espacial de Star Trek, onde se faz a reação de matéria com antimatéria. Em suma: basicamente a resposta dada implica que tudo o que precisamos pra construir a USS Enterprise NCC-1701-* e “ir onde ninguém jamais esteve” seria uma… mera academia (e não toda aquela função de reagir deutério com antideutério)!

star-trek-facepalmsOu seja… Sabe aquele “quilinho a mais” que você vai pra queimar na academia? Pois é, mais da metade da classe médica achava que era convertido em, apenas, usando a simples equação de Einstein, 90.000.000.000.000.000J, ou míseros 90.000 TJ: mais da METADE da energia liberada na maior detonação nuclear da HISTÓRIA, ou 1.400 bombas de Hiroshima ou 1.000 de Nagasaki! Mais do que digno de um “Cala a boca, Magda”!

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Cala a boca, Magda!
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Nós temos um Hulk!

Resumo da ópera: era óbvio, ao limite do absurdo, e com conhecimentos de ensino secundário, que não era assim que as coisas aconteciam. Pelo menos não no mundo real: nas HQs, seriados, desenhos animados e filmes da Marvel, como diria Tony Stark no primeiro filme dos Vingadores, “Nós temos um Hulk”!

Onde afinal entra o Hulk? Bom, sinopse ultra-resumida[7] para quem esteve vivendo como eremita numa caverna escura no meio da floresta pelos últimos… 50 anos? Dr. Buce Banner, Físico, acaba em um acidente se tornando uma versão pós-Relativística de “O Médico e o Monstro”[8] após contaminação severa com radiação gama (para quem não acompanhou, uma fonte de ENERGIA). Nisso, ele ganha a habilidade de se transformar num “monstro-herói”, o Incrível Hulk, que tem uma força, tamanho e MASSA muito superiores as do próprio Dr. Banner (e passa o resto da vida tentando encontrar uma cura, terminando os episódios com uma música triste que marcou época pra quem viu o seriado[9]). Como estamos falando de transformação de massa em energia e vice-versa, estamos falando de Relatividade Específica, estamos falando de E=mc². Isso é bastante discutido neste vídeo do canal Nerdologia, onde eles comparam sob a óptica da Ciência especificamente a super-força de três personagens.[10]

Encerrando: segundo muitos médicos, emagrecimento em academia segundo a explicação deles causaria:

  1. Hecatombe nuclear, ou;
  2. Apocalipse Hulk!

Fonte: http://www.crushable.com/2012/09/06/entertainment/the-avengers-hulk-punch-thor-hulk-smash-loki-tom-hiddleston-chris-hemsworth-mark-ruffalo-667/E depois eu tenho que ver atriz global virar colunista de jornal de grande tiragem no país se perguntando por que que os filhos dela precisam, coitados, estudar Química no colégio! Pra quem esqueceu, só olhar a referência[11].

Respondendo a essa coluna (a qual eu voltarei várias vezes, não se preocupem): pra ser um profissional (neste caso, um médico) digno do nome, e não um que possa passar vergonha na frente de uma criança ou adolescente que o corrija no exercício da sua profissão (no caso, numa consulta médica) num assunto básico que ele viu (ou deveria ter visto) no colégio. Isso deveria ser motivo mais do que suficiente.

bugs-bunny-thats-all-folks25Referências:

[1] “Cientistas descobrem o que acontece com a gordura quando você perde peso” (http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/cientistas-descobrem-que-acontece-com-gordura-quando-voce-perde-peso-14849191)

[2] Meerman, R., Brown, A. J. BMJ 2014; 349 (http://dx.doi.org/10.1136/bmj.g7257)

[3] Antoine Lavoisier (http://en.wikipedia.org/wiki/Antoine_Lavoisier)

[4] “Eficiência” energética de armamentos nucleares (http://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_weapon_yield)

[5] Little Boy (http://en.wikipedia.org/wiki/Little_Boy)

[6] Fat Man (http://en.wikipedia.org/wiki/Fat_Man)

[7] Dr. Banner e o Incrível Hulk (http://marvel.wikia.com/Hulk_%28Robert_Bruce_Banner%29)

[8] “O Médico e o Monstro”, de  Robert Stevenson (http://en.wikipedia.org/wiki/Strange_Case_of_Dr_Jekyll_and_Mr_Hyde)

[9] “The Lonely Man”, de Joe Harnell (vulgo “música do Hulk”: https://www.youtube.com/watch?v=vns3ruSbUrY)

[10] Episódio do canal Nerdologia (https://www.youtube.com/watch?v=rUuPl5YNpE8)

[11] “Química, pra que te quero” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/denisefraga/2014/08/1494462-quimica-pra-que-te-quero.shtml)

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